O que importa? Isso é Cubatão.

Vista áerea de Cubatão - imagem da Secretaria de Comunicação da Prefeitura

Vista áerea de Cubatão – imagem da Secretaria de Comunicação da Prefeitura

Servidor público municipal não recebeu um centavo de reajuste salarial ou reposição inflacionária este ano e a Prefeitura alega que não tem dinheiro e está no limite prudencial de seu orçamento. Mas o que importa é que Cubatão está abrindo concurso para preencher supostas 18 vagas em seu quadro funcional, mas que são apenas para formação de cadastro de reserva, cujas taxas de inscrição vão de R$ 48,00 a R$ 88,00 reais.

Aposentados e pensionistas da prefeitura não recebem seus vencimentos em dia. Mas Cubatão anuncia que vai oferecer 50% de desconto para os mesmos aposentados e pensionistas que estão sem receber e isso é o que importa.

O revolucionário Quarteirão da Saúde era o carro-chefe da campanha de reeleição da prefeita, em 2012. Parte do quarteirão virou destroços e a outra parte continua sendo o combalido pronto-socorro municipal e o mesmo teatro, vazio, sujo, maltrapilho e abandonado há décadas. Mas o que importa é que Cubatão improvisou no lugar do Quarteirão o revolucionário Caminhão da Saúde, que sabe-se lá até quando ele vai atender.

Também em 2012, houve cerimônia e pompa para anunciar que enfim romperia de solo cubatense o tão esperado primeiro Shopping Center, com hotel internacional, praça de alimentação, cinema e tudo mais. Houve mudança de Lei Orgânica, entre outras manobras imobiliárias, beneficiando proprietários da região. Um empreendimento que muita gente quis aparecer na foto para posar como tio, tia ou padrinhos do bebê. Porém, a gestação sequer vingou e agora ninguém quer assumir a culpa pelo aborto do feto. Mas o que importa é que Cubatão agora tem Mc Donald’s, Subway e Lojas Americanas.

A administração municipal continua dando calotes em fornecedores, atrasa pagamento de vale-transporte, empurra com a barriga a finalização de obras de reforma em centros esportivos, manutenção do Parque Novo Anilinas, Cotia-Pará, Perequê e de todas as escolas do município, que apresentam sérios problemas de deterioração de suas instalações, reformadas há cerca de 6 anos. Mas o que importa é que Cubatão é uma cidade linda e hospitaleira, que a gente pode até não perceber que no dia-a-dia mudou muito, e ainda teve competência para realizar uma mega festa Danado de Bom, que custou mais de R$ 5 milhões.

A Prefeitura de Cubatão, depois de enrolar servidores e comércio por mais de um ano, contratou uma empresa para administrar o “aclamado e premiado” Cartão Servidor, a Ecopag, com histórico de problemas e calotes em mais de 20 cidades pelo interior de São Paulo e outros estados. Quando se deram conta da tremenda roubada que poderiam estar se metendo, os comerciantes da cidade travaram nas quatro rodas e voltaram atrás, deixando milhares de servidores batendo cabeça de loja em loja, em busca de algum estabelecimento onde pudessem gastar seus R$ 475,00. Entretanto, os créditos que foram inicialmente liberados foram bancados pelo própria Ecopag, que só foi receber da Prefeitura o pagamento da primeira fatura no dia 15/04, e só com isso ocorreu então a liberação dos novos créditos, ou seja, se a administração não pagar, a corda arrebenta na outra ponta, onde estão servidores e comerciantes. Mas o que importa é que o Cartão Servidor Cidadão, como propagandeia a administração, “movimenta a economia e gera empregos, deixa a economia mais pulsante e ainda atrai novos estabelecimentos, e fez com que nos últimos anos, várias lojas e marcas internacionais se instalassem na Cidade”.

A cidade pode estar numa tremenda bagunça, numa pendenga de dar dó; o Brasil todo vive um momento de crise econômica e política, com uma expressiva maioria da população a favor do inevitável impeachment da presidente Dilma. Mas o que importa é que a cidade tem uma prefeita que tira foto e posta no Facebook, toda sorridente ao lado de José de Abreu, um ex-guerrilheiro comunista que cospe em rosto de mulher.

É isso aí.

(*) Mário Torres Filho é professor em Cubatão. E-mail: matofi68@hotmail.com

Cubatão Danado/Tanada de Bom

Foto do portal do jornal "A Tribuna" de Santos.

Foto do portal do jornal “A Tribuna” de Santos.

Com uma certa relutância, entendendo o paradoxo o qual Cubatão vive dentro e fora desta pomposa festa, atrevi-me a contrariar a minha indignação e fui ao Danado de Bom conferir in loco aquilo que eu já tinha a certeza que encontraria, entre algumas surpresas, agradáveis, desagradáveis e outras que não eram surpresa nenhuma, apenas atitudes patéticas e biodegradáveis. E não tenho vergonha nenhuma de dizer que fui à festa; para ter uma opinião concreta é necessário entender aquelas questões básicas para elaboração de uma matéria: O que, Quando, Onde, Quem, Como e Por quê. Tendo sido patrocinada ou não, sabemos que o “Quanto” ultrapassou a casa de R$ 5 milhões.

Foi certamente uma linda festa, pelo menos nos três primeiros dias. Muita gente, muitas opções de fast-food nordestino, organização, ótimos shows (só vi Paralamas, Zeca Baleiro e Moraes Moreira) queimas de fogos, telões, jogo de luzes, interação com a internet, drone registrando todos os momentos. Bom, quando se tem dinheiro para pagar gente com competência para organizar um evento, o resultado é o que todos viram. Parabéns aos organizadores, realmente foi um sucesso.

Porém, como aquela máxima que aconteceu na Copa do Mundo de 2014, sobre os bilionários e modernos estádios construídos exclusivamente para a ocasião, quando ainda faltava construir um país do mesmo nível do lado de fora deles, no caso de Cubatão e o do Danado de Bom, apenas faltou competência para organizar e manter uma cidade Danada de Boa fora da festa.

Sobre as surpresas desagradáveis, vi muita gente, entre jovens e adultos, fumando maconha abertamente, sem nenhuma vergonha na cara, sem pudor ou respeito se ao redor estavam crianças, jovens e adultos de bem. A noite do show do Zeca Baleiro, que aconteceu após a apresentação do Nação Zumbi, parecia uma triste e deprimente reedição caiçara de Woodstock. Se eu imaginasse, teria levado máscara de proteção anti-gás. Tudo bem, quando mais jovem, eu não fui 100% certinho mas pelo menos eu e a maioria das pessoas em outras épocas tínhamos a decência e o respeito para com os outros de manter a discrição sobre as imbecilidades que cometíamos.

Quanto às não-surpresas, aquelas atitudes patéticas e biodegradáveis, o que se pode dizer quando ocorre uma festa popular com entrada gratuita, organizada com dinheiro público por uma administração municipal cujo partido afirma representar o povo e ser contra a elite branca capitalista, burguesa e coxinha, e aí você vê um bando de servidores desta administração, entre secretários e demais comissionados, seus familiares e amigos convidados, com pulseirinhas coloridas no pulso, bem ao estilo das festas e baladas privadas, separadas do povo em camarotes e naquele cercadinho reservado bem no gargarejo do palco, e ainda com seguranças? O que dizer disso então? Cadê aquela decisão de “autoridades fora do palanque, no chão junto com o povo”, como orgulhosamente proclamada em 2009 pela prefeita no primeiro desfile cívico de 9 de abril? A verdade é que quando as vulgo “autoridades” se acham seres diferenciados pelos cargos momentâneos que possuem, e merecedores de privilégios devido à proximidade e intimidade com o poder, isso mostra que nada, nadica de pitibiriba está bom, para início de conversa. Sinto muito se alguns amigos usufruíram desse “free pass”, desse “green card” para se separarem da restante classe plebéia. Assistir aos shows do lado de fora do “solo sagrado”, mesmo com toda a maconhada no ar, foi bem legal e proporcionava uma visão bem interessante das cenas patéticas protagonizadas por candidatos e autoridades aladas.

Enquanto isso, do lado de cá das muralhas que cercam a Cubatão que todos gostariam de ter, ainda existe a cidade que não merecemos nem um pouquinho ter. Sugiro então que desviem imediatamente de função as pessoas que organizaram o evento, e as coloquem para solucionar de uma vez por todas os nossos problemas nas áreas de Saúde, Educação, Turismo e Lazer, Finanças, Habitação, Obras, Indústria e Comércio, Gestão, Governo etc. E que toda a real “sofrência” que estamos passando fora das grandiosas festas chegue ao fim.

(*) Mário Torres Filho é professor das redes pública e privada de ensino. E-mail: matofi68@hotmail.com